quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Contava os dias e a cada tempo que adiantava, sentia os fios que lhe seguravam os miolos soltarem-se um pouco mais. Ele conhecia o processo já havia algum tempo. Ainda criança experimentou passar pela reconfiguração de seu sistema várias vezes. Gravaram pequenos vazios na memória do seu corpo e quando se alargava o cérebro, ele não conseguia mais recitar os versos de antes, catar conchas como antes, empinar pipa e se lambuzar de farinha. Nada como antes. A cada dor insuportável, menos estabilidade para seguir como os outros. Perdia o equilíbrio, rolava neve abaixo em dias brancos enviesados. E assim, ele nunca mais recuperaria sua antiga tragetória sonhada em linhas e rabiscos. Inventava outra imagem, novo som, outros fios lhe contornavam os pensamentos. Alguns menos doídos.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

lúdico,poética e utópica versus o pragmatismo, a técnica e a forma

sigo tentando me desfazer do que é nó em mim e luto sem conseguir um bocado de vezes.
mergulho num amor que descobri e entendo mais dele com o tempo.
sou andarilha na cidade e de mim mesma.
tenho tentado transformar solidão em solitude e descobrir pessoas bonitas em qualquer canto.
persisto preferindo o mundo imaginado, o que não me parece muito bem.
mas isso creio que não consiguirei mudar.

domingo, 3 de janeiro de 2010

as horas têm muita pressa

o que muda na mudança
se tudo em volta é uma dança
no trajeto da esperança
junto ao que nunca se alcança?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Prece

Nossa senhora dos pensamentos em devaneio, livrai-me da dispersão,
Amém.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Um

O pensamento caiu num buraco sem fim enquanto fugia.
Foi morar em meio a estranhos conhecidos e
gostava de estar entre eles
embora não conseguisse trocar uma idéia.

Ele era pensamento rápido, desavisado, sem dono.
Queria parar junto a outro pensamento,
criar laços, constituir família.
Mas sua forma, tamanho, lógica
e precisão lhe desiludiam do mundo.
Os dias passavam e lhe diziam:
você não é daqui, dali, acolá

- Você é de lugar nenhum.

Ultimamente ganhava amigos sem força e brilho,
agarravam-lhe a vida, tomavam emprestada sua alegria.
Ficava então ali sozinho, sem vizinho, sem destino, sem.
Um pensamento isolado de si.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Danado

Eles discutiam o futuro da razão. Debaixo de tanta pele, força, tensão, o sentir ganhava o mundo e queria mais. Para além das amarras da mente por hora tão polida, se deixassem os dias seguirem assim, onde iria morar o ponderado, o medo lascado, o meio molhado, tudo assim um tanto pingado?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Conversa de umbigos

Meu Nome é Alice. Dois. Sim. Isso é um tênis. Você não usa sapato? Uuuuaaaauuuuuuu. Uma ovelhinha. Aaaaaaaaaaahhhhhhhh. Posso levar os macacos para passear? Olha meu umbigo! Você não tem umbigo? Me mostra o seu. Eu já vi o da minha mãe.